O Sínodo para a Amazonia

Logo no início de seu ministério como Papa, Francisco exortava a Igreja, Povo de Deus, que se levantasse do conforto dos sofás e da segurança das sacristias; que se libertasse das amarras de estruturas pastorais superadas e se pusesse a caminho, em saída, ousando corajosamente o Evangelho: “Ousemos um pouco mais tomar a iniciativa… com obras e gestos a comunidade missionária entra na vida  diária do outro, encurta as distâncias, abaixa-se e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”. (EG.24). Francisco tem como norma Pastoral, não só falar, mas, sobretudo, agir: sair ele mesmo, em pessoa, para as periferias geográficas e existenciais de nosso mundo.

Sua primeira saída do Vaticano, foi a visita que fez em Lampaduza, no sul da Itália, porta de entrada de migrantes na Europa, ao encontro desses povos sofridos, em busca de sobrevivência; contudo, tantas vezes perdem a própria vida nas águas do Mediterrâneo. Em continuidade tem feito várias visitas ao continente africano, a última foi em Moçambique, Madagascar e Ilhas Maurício (2019)

Decisiva, porém para a convocação do Sínodo da Amazônia, foi sua visita ao Peru. Nessa ocasião o Papa encontrou-se com os Povos Amazônicos no dia 19 de janeiro de 2018, em Puerto Maldonado, onde lembrou que “setores dominantes e governos nacionais e estrangeiros, tratam a Amazônia como ‘despensa inesgotável’ e consideram os povos originários um obstáculo para o desenvolvimento da região. Na realidade as culturas da Amazônia são sinais de vida, além de constituir uma reserva da biodiversidade que deve ser preservada face aos novos colonialismos – ávidos de disputar cada palmo do território amazônico com os habitantes originários”.

Disse ainda Francisco: “Vós sois memória viva da missão que Deus vos confiou a todos: cuidar da Casa Comum… Defender a terra é defender a vida”.

A voz de Francisco ecoou e tornou-se um clamor das Igrejas da Região Pan-Amazônia: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa e Brasil.

“Com dor constatamos que estes povos estão sofrendo em todos os países uma situação de desprezo, marginalização e até criminalização. Frequentemente são desalojados de seus territórios tradicionais, o que os obriga a migrar para zonas urbanas, onde sofrem o despojo de sua dignidade e de seu direito de ser diferentes [...]. O sistema neoliberal globalizado oprime rapidamente qualquer pequena alternativa emergente. Existe pouco espaço para que os Povos Originários possam contribuir com a grande riqueza de seus valores humanos que desenvolveram e mantêm durante milênios, resistindo a toda classe de colonização, invasão ou dominação.” (Celam 2018)

O foco do Sínodo já se expressa no seu tema: Amazônia, novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

É bem verdade que “tudo está interligado como se fôssemos um, nesta casa comum”.

A primeira atitude dos protagonistas envolvidos com o Sínodo tem sido escutar… escutar e escutar o grito dos povos amazônicos: indígenas (três milhões) em aldeias, cidades e também isolados; ribeirinhos e quilombolas… Todos unidos pelas águas dos grandes rios. “Sua cosmovisão, sua sabedoria, tem muito a ensinar a quem não pertence à sua cultura” (Papa Francisco).

Segundo passo: discernir à luz do Evangelho, quais os novos caminhos que o Espírito inspira e indica, respeitando o “sensosfidei”, o instinto da fé que habita o Povo de Deus. O Sínodo está sendo realizado pelos bispos com os povos amazônicos, com a participação e assessoria de teólogos, pastoralistas e peritos em antropologia, ecologia e em outras ciências.

Esta etapa, a meu ver, realização do Sínodo em Roma, de 6 a 27 de outubro (2019), será difícil e desafiadora, até porque sua composição envolve pessoas que jamais viram um índio e muito menos conhecem sua cultura e os veem de forma folclórica e os reduzem à idade da pedra (como, aliás, o fez o presidente do Brasil). Oremos!

Que não falte aos sinodais discernimento, ousadia, coragem e paixão.

Enfim, a etapa mais longa e difícil do Sínodo será a concretização de suas Diretrizes e decisões pastorais, o agir.

A Igreja no seguimento do Divino Mestre, haverá de, em tempo, resoluta e decididamente tomar novos caminhos (Lc 9,51), Novos! Não mais os já batidos. Avançar para águas mais profundas. Há de se construir uma Igreja de rosto amazônico, predominantemente indígena, inclusive o de seus pastores e pastoras que têm historicamente marcado e sustentado aquelas Comunidades de Igreja em sua opção pelos pobres, na luta pela sua libertação, no cuidado da natureza, na preservação de sua cultura, na defesa e promoção da vida e no serviço samaritano aos caídos à beira da estrada. As Comunidades cristãs necessitam do Pão da Palavra e igualmente do Pão da Eucaristia. A Igreja faz a Eucaristia, a Eucaristia faz a Igreja. O Sínodo há de encontrar também este novo caminho para as Comunidades cristãs amazônicas!

(Convido os leitores desta coluna a conferir esta matéria no Documento Preparatório do Sínodo e também na Revista Vida Pastoral no. 327 (2019) Paulus).

Pe. José Arlindo de Nadai – Paróquia Divino Salvador