O inesperado da morte

Na semana passada a morte de Robin Willians, há umas duas semanas o suicídio de outro comediante, Fausto Fanti, integrante do grupo Hermes e Renato e na última quarta-feira a morte do candidato à presidência da República Eduardo Campos. Claro que em circunstâncias diferentes, porém, a morte quando acontece próxima nos causa assombro. O ser humano quando se depara com a finitude não a aceita como componente da humanidade. A morte é como um estranho que nos acompanha.

Na contemporaneidade temos uma dificuldade imensa para se falar da finitude. Vivemos como imortais. Passamos de uma fase para outra na vida sem preocupações com o fim. Poderíamos dizer que há uma clandestinidade da morte. Nas famílias não se fala sobre o tema. Ela está entre nós, mas não a vemos. Parece que está a nos rondar a todo instante. E de fato a qualquer instante ela pode acontecer, ela pode nos visitar sem avisos prévios.

O que mais assusta é quando ela acontece de modo inesperado, quando nos pega de surpresa, como se fosse um ladrão. Sim, por que nossas esperanças são roubadas. Nossos sonhos são saqueados quando ela nos sobrevém, seja num suicídio seja num desastre automobilístico ou aéreo. Quando entrevistada, Renata, a viúva de Eduardo Campos, fez visitantes à sua casa chorarem, quando disse que a família estava tão feliz e confiante com o futuro que nada indicava que pudesse acontecer algo ruim.

A sensação é de que nunca seremos visitados pela morte. Quando ela acontece numa situação de felicidade temos a impressão de que ela bate na porta errada, de que não era para nós essa indesejável visita.

Por quais motivos não se trata desse tema de modo mais natural como acontece em outras culturas? O paradigma de nossa época é o Mercado. Para atendê-lo bem é preciso despertar nas pessoas a necessidade de consumo. Se consome para ter prazer. Se consome para ter poder. Se consome para ter reconhecimento social. Tudo isso tendo como “pano de fundo” a felicidade. A morte se torna assunto inconveniente às regras de mercado. A busca por felicidade exigida pelo mundo moderno escamoteia e torna a morte uma clandestina de nosso tempo.

Mas o tema da finitude nos questiona: o que vale colocarmos tanto foco no orgulho, prepotência e sede por poder, sabendo que das garras da morte ninguém pode escapar? Talvez uma das metáforas bíblicas que mais nos ajudem a entender a finitude e a fugacidade da vida seja o segundo capítulo do Gênesis se referindo ao Homem: “pó da terra e sopro das narinas de Deus.” (cf. Gn2,7). O livro de Jó nos recorda: “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (conf.: Jó10, 9;).

Belo seria enfrentar a morte como nos fala São Francisco: irmã morte. Mas, como muitos de nós ainda não atingimos esse nível tão elevado de espiritualidade temos uma única certeza: cedo ou tarde ela nos visitará. Causará espanto. Provocará comoção geral por que ainda nos é estranha. Fausto Fanti, Robin Willians, Eduardo Campos. A vida é fugaz e incerta mesmo.

Pe. Victor Silva Almeida Filho

Formador do Seminário da Arquidiocese de Campinas