Fraternidade e Defesa da Vida

Cada ano a Igreja Católica no Brasil promove a Campanha da Fraternidade (CF) tendo sempre como objetivo apresentar uma questão social emergente para a consideração de seus membros e da sociedade. Quase nunca a CF se restringe a questões internas da vida da Igreja. Afinal, a Igreja não vive para si mesma, mas sua missão é para a vida e dignidade de todos, igualmente. Nunca é demais lembrar o apelo do Papa Francisco: saiam, vão, ousem o Evangelho!

Pois bem, o tema da CF deste ano é: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. E o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)

Quando múltiplas formas de vida convivem num mesmo espaço, sob o mesmo clima, ao mesmo tempo, então ali está um bioma (bios = vida; oma = conjunto).

Os biomas que compõem o território brasileiro, oficialmente são: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Há quem acrescente os Manguezais da costa brasileira e ainda a Zona Marinha…

Quais são os biomas que você conhece por experiência ou convivência?

O nosso bioma é a irmã Mata Atlântica que vai desde o Rio Grande do Sul até o Piauí, ao longo de toda a costa e mais alguns Estados como Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais.

“Os relatos mais antigos falam de uma floresta aparentemente intocada, apesar de habitada por vários povos indígenas com populações numerosas. Hoje, a concentração urbana na Mata Atlântica abriga a maioria das nossas capitais litorâneas e regiões metropolitanas, por isso a necessidade de atenção em relação às políticas públicas, principalmente de saneamento básico, que não tem sido priorizadas pelos agentes políticos ou administradores públicos dos mais de três mil municípios que compõem o bioma Mata Atlântica” (CF – 121)

“Vivem na Mata Atlântica mais de 20 mil espécies de plantas, sendo 8 mil endêmicas (que existe somente em uma determinada área ou região geográfica); 270 espécies conhecidas de mamíferos; 992 espécies de aves; 197 répteis; 372 anfíbios; 350 espécies de peixes”. (CF 123)

A Campanha da Fraternidade que acontece de forma intensa durante a Quaresma constitui-se num apelo à conversão, no sentido de uma mudança de estilo de vida, correção de rota quanto ao modo de nossa relação com a Natureza e seus elementos, com a pessoa do próximo e com toda a sociedade em geral. Tudo está interligado. Precisamos, para sobreviver bem, de água limpa (não contaminada) do ar puro (não poluído), de alimentos saudáveis, do clima ameno…

A CF alerta-nos igualmente para o respeito à sócio diversidade que ainda resta na Mata Atlântica, originalmente habitada por povos como Tamoio, Tupiniquins, Caetés, Tabajara, Potiguar, Pataxó e Guarani. Ao longo de toda a Mata Atlântica convivem populações praieiras, quilombolas, remanescentes indígenas (caiçaras) além de imensa concentração populacional urbana, da qual nós fazemos parte. Trata-se portanto, de buscar uma convivência harmônica, respeitosa e fraterna entre homens, populações, culturas e Natureza.

O Papa Francisco em sua carta sobre o cuidado da casa comum – Laudato si – denuncia o consumismo obsessivo. “Quanto mais vazio o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir”.

Resgata-se hoje, em outros termos, a espiritualidade e mística franciscana de um olhar contemplativo da criação e não meramente utilitarista e explorativo.

Francisco de Assis (tido como a personalidade mais influente do 2º. Milênio), cultivava uma relação de fraternidade ou fraternura para com a criação; basta lembrar o hino às criaturas, no qual o poeta e místico trovador medieval saúda o sol, a lua, a terra, a água, os peixes, os pássaros e até o lobo, como irmãos e irmãs…

Aliás, Francisco bebe de uma fonte generosa que são os salmos de louvor e ação de graças pela vida e pela criação que brotou das mãos de Deus como das mãos de experiente oleiro e artista.

Também os povos indígenas cultivam religioso respeito à natureza. Para eles tudo o que se faz à mãe terra se faz também aos filhos da terra…

Trata-se de viver uma fraternidade universal e uma espiritualidade e mística do cuidado, conforme o próprio lema da Campanha da Fraternidade/2017: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)

Pe. José Arlindo de Nadai – Paróquia Divino Salvador