Deus e os Massacres

“Onde estava Deus durante o holocausto?” Essa foi a pergunta feita pelo Papa Bento XVI em Maio de 2006 em sua visita ao Campo de Concentração de Auschwitz na Polônia. Esta também pode ser a pergunta que muitos se fazem: Onde estava Deus na tragédia da escola Tasso da Silveira do Rio? Onde estava Deus no ‘Tsunami’ que devastou o Japão? Onde estava Deus nos ataques às torres gêmeas e ao Pentágono nos Estados Unidos? Onde está Deus quando as coisas vão mal em minha vida? Ou seja, inevitavelmente nos vem à mente este questionamento: Por que acontece tais ou tais coisas comigo? Por que Fulano que era tão bom, morreu? Por que Beltrano que sempre se preocupou com os mais pobres morreu tão precocemente? Enfim, por que Deus aceita as fatalidades e massacres?

Antes de mais, faz-se necessário que pontuemos algumas coisas. Não é desejo de Deus que passemos por fatos desagradáveis. Mas, fatos desagradáveis, a dor e o sofrimento fazem parte de nossa finitude, são parte intrínseca de nossa humanidade. Nos tempos em que vivemos ditados pela facilidade, bem-estar e comodidade proporcionados pela evolução das tecnologias e pelo consumo, não é fácil a aceitação do sofrimento, da perda, separação e da morte.

Desse modo, como o bem-estar se coloca ao nosso alcance, inevitavelmente a concepção mercantil também toma conta de nossa religiosidade. Passamos a querer comprar de tudo, barganhamos tudo para não passarmos pelo sofrimento – que pode ser pedagógico, elucidador e purificador de nossas vidas. Ou seja, achamos que Deus é um grande comerciante/retribuidor, Ele deve retribuir com bênçãos de toda a ordem para meu bem próprio e de toda minha família.

Esquecemos ainda que entre Deus e nós pode ter outro ser humano que não pensa como a maioria das pessoas, que pode ser inflexível em sua postura, não dado ao diálogo, fundamentalista, ou que faltou algum elemento básico em sua formação humana. Ou seja, o outro também pode causar a dor por todos esses fatores acima descritos. Sem contar que a maior fragilidade de Deus está em respeitar integralmente a liberdade de cada ser humano.

O Deus de Jesus não quer o sofrimento e a dor de seus filhos e filhas. O Deus de Jesus é pura gratuidade. Puro amor. Pura compaixão. Sendo assim, as mazelas pelas quais passamos, são componentes intrínsecos do ser humano, de toda ordem. Bento XVI respondeu à pergunta que ele mesmo havia feito em Auschwitz, dizendo que Deus estava em cada ser humano que era levado de sua vida no holocausto; Deus morre em cada ser humano que é arrancado de sua vida nos massacres e desastres naturais. Assim, como em Jesus, Deus morre na cruz, Ele continua a morrer quando sua proposta de vida continua a não acontecer em nossa sociedade, quando não transformamos em fé viva o que acreditamos.

Padre Victor Silva Almeida Filho é Vigário paroquial da Paróquia Divino Salvador de Campinas