A vida acima de tudo! Não matarás!

 “Eu te propus a vida ou a morte. Escolhe, pois, a vida!” (Dt 30,19)

Nossa querida cidade de Campinas acordou chocada, traumatizada, justamente no primeiro dia desse ano, que ainda estamos iniciando, com a chacina de 13 pessoas ocorrida no Jd. Aurélia. Confundiam-se os tiros fatais com o espocar dos fogos que saudavam a chegada do novo ano, iluminando aquela noite com novas esperanças!

Infelizmente, trágico e assustador tem sido este mês de janeiro, que cada dia nos surpreende com novas e violentas mortes, por conta das matanças em curso, nos presídios de Manaus, Roraima, Rondônia, Rio Grande do Norte. E vão como rastilho de pólvora ameaçando tantos outros pelo país afora, que convivem, igualmente, com os mesmos problemas, agravados e acumulados por anos e anos.

Cenas dantescas de prisioneiros do chamado estado islâmico (EI), vestidos de vermelho, postos de joelhos, com mãos algemadas e cujas cabeças são decepadas, com requinte de crueldade, diante de câmeras, que pareciam tão distantes e estranhas à proverbial cultura brasileira “cordial e pacífica”, de repente, multiplicam-se em algumas prisões de nosso país e tomam conta das redes de comunicação como um tsunami.

Perdoe-me o paciente leitor, mas é preciso ainda ampliar nosso olhar com outros dados, para não pensarmos que se trata apenas de um episódio pontual.

A cada 9 minutos uma pessoa é morta violentamente em nosso país. Foram 58.465 em 2015. Quem são? 54% jovens de 12 a 24 anos. E 73% são negros.

“O Brasil registrou mais vítimas de mortes violentas e intencionais em 5 anos, que a guerra na Síria no mesmo período. Brasil 279.567 mortos. Síria 256.124 mortos (Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública e Observatório de Direitos Humanos da Síria)

Curioso. Enquanto escrevo, ouço pelo rádio que o Estado de S. Paulo possui o maior número de detentos, igual ao do México, um dos países mais violento do mundo. A Região de Campinas abriga a maior população carcerária de S. Paulo, cerca de 12.000 presos.

Retomo o título dessa matéria – Não matarás – enunciado do 5º. Mandamento nos Livros Sagrados da Bíblia (Ex 20,13 e Dt 5,17) que recolhe a tradição das culturas de povos primitivos. As grandes Religiões de todos os tempos e lugares têm como imperativo ético, o respeito à vida humana, como algo sagrado. Para o Judaismo e o Cristianismo e também para o Islam a vida é o dom primordial de Deus, Senhor da vida. Jesus de Nazaré levou avante aperfeiçoando esse mandamento com um novo ensinamento, o amor fraterno.

“Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,19). Mais tarde João acrescentará, em sua carta: “Todo aquele que odeia seu irmão é homicida; e sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele! (1Jo 3,15).

Já passou da hora de resgatarmos esse arquétipo, isto é, esse valor supremo inscrito no mais profundo da consciência humana – A vida acima de tudo! Não matarás! E, de novo escutarmos a interpelação do Criador: “Caim, Caim, onde está teu irmão? Que fizeste? Ouço o sangue de teu irmão, do solo, clamar para mim” (Gn 4,9-10)

Longe de nós reduzir tamanho problema a uma questão unicamente ética e religiosa. Mas, certamente essas dimensões contam muito na formação integral da pessoa.

De ponta a ponta, do primeiro ao último livro da Bíblia cultiva-se a esperança de “um novo céu e nova terra”. (Ap 21,1)

Pe. José Arlindo de Nadai – Paróquia Divino Salvador