Um olhar sobre o sofrimento

Com muita frequência ouvimos alguém dizer: vivemos cercados de sofrimentos! Quanto sofrer! De minha parte, faço cotidianamente a experiência do encontro com pessoas em sofrimento. Pode passar um dia, mas não passam dois, sem que visite um hospital, uma UTI, uma clínica de repouso, ou uma residência para atender algum enfermo, além daqueles que nos procuram na própria Igreja. E mais as frequentes visitas aos cemitérios para as Exéquias. Diante dessa realidade tão dolorosa, não escapamos da pergunta: por que tanto sofrimento? Ou então, ouvimos de outrem, por que eu?

A primeira consideração a fazer é que o sofrimento faz parte da condição humana, de sua limitação e finitude. “A fragilidade do homem está inscrita na sua constituição”. Pode ser a dor física, psíquica, moral ou espiritual.  De origem interna ou externa à pessoa. Suas causas são múltiplas e complexas. Quase sempre escapam ao nosso controle, se bem que, o conhecimento e as ciências da vida, a pesquisa e a tecnologia podem prevenir, aliviar ou curar as doenças que fazem sofrer a pessoa.

Já se disse que a Sagrada Escritura é uma longa história do sofrimento humano “das profundezas do abismo clamo a Ti, Senhor” (Sl 130)

Jesus, Divino Salvador, mergulhou fundo no sofrimento humano – assumiu a nossa fragilidade, carregou nossas dores, até a dor maior: a morte, e morte de cruz. Por isso é chamado Servo Sofredor. Interessante notar como a piedade popular está mais para o Jesus crucificado – Bom Jesus do Bonfim – do que para o Cristo Ressuscitado. Basta observar a iconografia (as imagens) das igrejas… Entretanto, no horizonte da fé cristã, brilha a luz da Ressurreição. Nosso Deus não é um deus dos mortos, mas sim o Deus da vida. A glória de Deus é o homem vivente!

Os contemporâneos de Jesus de Nazaré reconheceram-no como “alguém que passou fazendo o bem”. Curava os doentes, consolava os aflitos, tinha compaixão da multidão faminta e dava-lhes de comer; fazia parte de sua missão libertar os presos e oprimidos, restituir a visão aos cegos e a audição aos surdos. Esses são os sinais distintivos e os critérios de sua messianidade.

Pelo mistério de sua Encarnação e Redenção, Jesus derrama abundantemente sua graça libertadora sobre toda a Humanidade.

O mandato missionário de Jesus, conferido aos discípulos de ontem e de hoje, é acompanhado do cuidado dos doentes e dos que padecem de qualquer mal (Cfr Mt 10,5). É preciso ver o outro, parar e cuidar. Não fingir que não viu e ir adiante impassível e indiferente à dor do irmão. Lembremo-nos da parábola do bom Samaritano (Lc 10,25). Além do seu ensinamento, Jesus, ele mesmo, segundo lemos nos Evangelhos, quando vê alguém em sofrimento é tomado de compaixão e age com misericórdia (Cfr Lc 7,11). Assim traz de volta à vida o filho único da mãe viúva de Naim.

A atitude de Jesus diante de situações concretas de sofrimento, sua compaixão e misericórdia, mais ainda, a contemplação chocante de seu corpo exangue pendente da cruz e seu brado: “Meus Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 15,34), certamente ainda não decifram o enigma do sofrimento, mas podem dar-lhe um sentido salvífico e redentor, à luz da fé e da esperança cristãs.

No espaço limitado desta coluna não dá para considerar também a dimensão social do sofrimento de milhões de pessoas, famílias e povos pelo mundo afora. Registramos, todavia, que este vasto e profundo mar de dores, angústia e pobreza é devido às estruturas iníquas e injustas, sejam econômicas, sejam políticas, das Sociedades e dos Estados modernos. O Papa Francisco denuncia a globalização da indiferença.

Pe. José Arlindo de Nadai – Paróquia Divino Salvador