Páscoa

Eis uma palavra muito recorrente em nossas celebrações. Quantas vezes ouvimos: estamos reunidos para celebrar a Páscoa do Senhor. Mais correto seria completar: e a nossa Páscoa!

A Páscoa do Senhor e nossa Páscoa lança raízes históricas e religiosas na grande festa nacional do povo de Israel que celebrava sua constituição como povo de Deus. A festa é um reviver do êxodo (saída da condição de escravos no Egito para a condição de nação livre) “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Jr 7,23) Termos da Aliança.

Os Evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc) narram, de forma muito plástica e pormenorizada a Páscoa de Jesus, celebrada com seus discípulos(as). “No primeiro dia dos ázimos (pães sem fermento) os discípulos aproximaram-se de Jesus, dizendo: ‘Onde queres que te preparemos para comer a Páscoa?’”… “Ao cair da tarde, ele pôs-se à mesa com os Doze…” (Mt 26,17.20; Mc 14,12-29). Entretanto é o Evangelho de Lucas que nos legou a narrativa mais completa da Páscoa do Senhor: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer… E tomou um pão, deu graças, partiu e deu-o a eles, dizendo: ‘Isto é meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória’. E, depois de comer, fez o mesmo com a taça, dizendo: ‘Essa taça é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós’” (22, 14.19-20)

Na carta de Paulo aos Coríntios encontramos a narrativa da Páscoa de Jesus em termos muito semelhantes à de Lucas (1Cor 11,23-27). Em continuidade a essa narrativa Paulo dá instruções claras e severas, sobre como celebrar dignamente a Ceia do Senhor.

Diante dessas narrativas sobre a Páscoa percebemos certa linha de continuidade com a Páscoa dos judeus; porém, Jesus de Nazaré dá-lhe, na última Ceia novo significado e amplo horizonte.

Assim sendo, a Páscoa que celebramos hoje como Ceia do Senhor é memorial (memória) – incorpora o passado no presente e o projeta para o futuro (escatologia) Cristo, ontem, hoje e sempre. Sentido de memorial – memória –  um acontecimento histórico do passado que se torna presente no mistério/sacramento e aponta para o futuro no Espírito.

Temos, então, a Páscoa dos judeus, a Páscoa de Cristo e a Páscoa cristã, nossa Páscoa.

Trata-se, pois, de realidades sob certo aspecto semelhantes, e por outro, muito diferentes. O anúncio pascal que se canta, solenemente na Vigília proclama “esta noite” “hoje” é o tempo da Salvação. O passado se faz presente. Simbolicamente os algarismos do ano corrente são inscritos no Círio Pascal. Cristo ontem e hoje, princípio e fim… a Ele o tempo e a eternidade.

“O corpo do Ressuscitado tem as chagas da Paixão e Morte (passado) e a luz da glória (futuro)”. O Corpo de Cristo significa a realidade física de seu corpo humano, da Encarnação à Paixão e Morte; seu Corpo debaixo das espécies do pão e do vinho e seu Corpo místico, o novo povo de Deus, a Igreja. Eis o mistério da fé.

A Páscoa é um mistério tão grande e sublime que é celebrado de forma pedagógica no Tríduo Pascal. Na quinta-feira santa, a Ceia do Senhor; na sexta-feira, Paixão e Morte na cruz e no sábado a Vigília Pascal, quando nós mesmos somos mergulhados no Mistério Pascal pelos Sacramentos do Batismo, da Eucaristia e da Crisma.

“Nós estamos no corpo da Páscoa mediante a experiência corpórea que fazemos nos sacramentos: a água do Batismo, o pão e o vinho da Eucaristia, o óleo do Crisma na Confirmação. Somos lavados, nutridos e ungidos. Eis o Corpo de Cristo, eis o Corpo da Páscoa” (cfr Gilio Osto, 2017)

Celebrando, pois, a Páscoa, especialmente a Vigília Pascal, compreendemos também sua dimensão cósmica-ecológica: O círio que acendeu nossas velas, possa esta noite toda fulgurar; misturar sua luz à luz das estrelas, cintile quando o dia despontar.

Ao longo do ano, nas celebrações dominicais, Páscoa do Senhor e nossa Páscoa, tantas vezes oramos: Ó Deus admirável na criação e mais admirável ainda em sua Redenção…                                               

Exultantes de alegria em nosso coração, desejamos paz – Shalom – do Cristo Crucificado Ressuscitado a todos os irmãos e irmãs na mesma fé e esperança cristãs.

A Paz esteja convosco!

Pe. José Arlindo de Nadai – Paróquia Divino Salvador