Futebol e reivindicações

De longe vejo o Brasil perder sua partida contra a Alemanha na Copa do Mundo. Não chegamos aos trinta de jogo e estamos a perder por 5 a 0. Os portugueses me perguntam o que está a acontecer. Na televisão são filmadas pessoas muitas chorando: jovens, adultas e crianças. Penso que o resultado mesmo que parcial revela a situação de nosso futebol nacional, na minha modesta opinião, quinta ou sexta força mundial, mas isso é assunto para outra crônica. O que me intriga é a comoção das pessoas por uma lúdica partida de futebol e não haver a mesmo alarido e emoção pela situação de nossa saúde, educação, transporte, meio ambiente e trabalho.

Sei que o futebol é paixão nacional por isso derrotas como esta afetam a autoestima de qualquer brasileiro; mas ao passar pelas autoestradas, ao ver os hospitais sem lotação, ao ver a educação pública de período integral com aulas de cultura musical educação física e artes, ao sentir o trato das pessoas de modo geral é impossível não imaginar tudo a acontecer em terras tupiniquins. Sei do muito feito até aqui. Estamos com pleno emprego e o PIB é um dos melhores dos últimos tempos. Afinal o Estado cuidar de mais de duzentos milhões de cidadãos não é fácil.

Nos transportes, além das boas autoestradas – uma exigência para Portugal entrar à União europeia, – são pelo menos quatro tipos de trens, aqui chamados comboios, para o deslocamento das pessoas.

Houve hoje uma greve dos médicos do Sistema Nacional de Saúde a pedir melhores condições para este sistema que já são boas em comparação às nossas. Duas coisas me impressionaram desse acontecido: a primeira foi a mobilização geral dos médicos portugueses visando o Sistema de Saúde que atende aos usuários e não apenas seus salários. E a segunda foi a compreensão e o apoio dos usuários aos médicos que repito faziam a “paragem” para provocar uma reflexão da nação para as condições de sua saúde.

Não quero tirar o direito de nosso povo apaixonado pelos esportes se comover pela seleção, mas todos deveriam se abalar pela de saúde tão sucateada, pelo problemático sistema de transportes, (é uma vergonha Campinas com mais de um milhão de habitantes não ter ao menos um sistema de veículos leves sobre trilhos, quais seriam os interesses contrários para que isso não aconteça em nossa cidade? Seria apenas má vontade política?), pelo precário sistema de educação. Afinal, futebol ou qualquer outros esporte faz parte do lúdico.

Além de não termos hospitais adequados, transportes convenientes, saúde acertada e uma educação apropriada, será que ainda temos o futebol que tanto nos caracterizou noutras épocas como nação do futebol arte?

Pe. Victor Silva Almeida Filho

Formador do Seminário da Arquidiocese de Campinas