Em busca de Deus – Padre Victor Silva

Não existe pessoa sobre a qual mais se tenha escrito, falado, cantado, discutido e pregado que a pessoa de Jesus. Muitos são os que empreendem esta tarefa e o fazem muito bem por sinal. Mostram segurança, conhecimento, preparo e pesquisa para o exercício dessa função. Já outros dirão que isto não é necessário, pois o primordial é a Graça divina acompanhar a pessoa que fala sobre Jesus. Ai está o perigo. Os pregadores que não estudam a pessoa de Jesus, mas ensinam como quem já viu tudo, lembram o enfermeiro que mal aprendeu a fazer curativos e já se arrisca a implantar pontes de safena!… Ou pilotar sem ter aprendido o básico numa escola de pilotos.

Muitos são entusiasmados, enfrentam câmeras e microfones, sobem a púlpitos de templos, enchem avenidas e até estádios para anunciar que o Homem Jesus, que viveu há dois mil anos atrás está vivo. Porém, o entusiasmo de proclamá-lo nem sempre corresponde ao ânimo de saber mais sobre Ele. A fala de milhares destes pregadores revela a falta de estudo e leitura bíblico-teológica.

Muitos rejeitam o que a ciência diz. Sem contar algumas práticas de exorcismo e quebra de maldições estão mais fora que dentro do catolicismo. No fundo, o Jesus que se tem anunciado tem as dimensões da cabeça de alguns pregadores. Anunciam um Jesus para consumo rápido, conversão intimista e adesão imediata, um poderoso produto demarketing, mas produto! Se há uma coisa que Jesus não era, não é, nem será é produto. Se for, então será falso.

Infelizmente se cria a imagem de Deus de acordo com os interesses e conveniências de quem Dele quer tirar proveito. Um discurso adocicado sobre o Divino que dá prazer às pessoas, que, de certa forma, aprova ditaduras, dominação de um grupo sobre o outro, recurso às armas, divórcio, aborto e a manipulação de embriões. O triste é que há cristãos das mais diversas igrejas que dizem o mesmo!

Anunciar a pessoa de Jesus, por um lado, é bom por aproximar as pessoas do Divino Salvador; por outro, pode ser perigoso quando há a manipulação da imagem de Deus de acordo com o interesse de quem o prega. Basta ligarmos as TVs para percebermos a quantidade de despropósitos ditos em nome de Deus; se justifica uma série de negócios religiosos por meio dessa imagem, quando não distancia as pessoas do Deus proposto pelo Divino mestre. Jesus de Nazaré, como dizia o Papa João Paulo II, é o rosto humano de Deus e o rosto divino do Homem.

Isso tudo revela que não podemos absolutizar um determinado pregador, pois sua visão será sempre parcial do todo inefável transcendental. A visão de Deus de quem segue unicamente o mesmo pregador, terá sempre a mesma imagem desenhada por aquela pessoa. Na verdade, não seguem uma Igreja: seguem uma pessoa, e esta pessoa está longe de ser Jesus!

No fundo, errado ou certo, o marketing tem hoje enorme influência sobre a fé do povo. Nem sempre se divulga o melhor “produto”, mas o “produto” que mais interessa e convence um determinado grupo de pessoas de um determinado grupo social. A imagem de Deus supõe sempre uma busca contínua, que ninguém poderá dizer que a encontrou definitivamente, por que a busca do rosto de Jesus é muito mais uma procura do que um achado.

Padre Victor Silva Almeida Filho é Vigário paroquial da Paróquia Divino Salvador de Campinas