APARECIDA: O LUGAR E A VIRGEM.
Símbolo e Utopia na Caminhada Popular
Maria Cecília Domezi
Tira as sandálias dos pés, pois o lugar onde pisas é sagrado (Ex 3,5).
O santuário mariano de Aparecida foi escolhido pelo papa Bento XVI para a realização da V Conferência do episcopado da América Latina e Caribe. Esta escolha permite, antes de tudo, uma continuidade da tradição da nossa Igreja Local, de realizar suas Conferências com os pés no chão da realidade dos povos daqui e o coração voltado para as suas realidades regionais específicas. Na verdade, quase permaneceu uma determinação anterior, de que esta Conferência fosse realizada em Roma. Está certo que o papa João Paulo II, gravemente enfermo, não podia se locomover. Mas, não se pode negar que, nos últimos anos, os sínodos continentais têm sido desviados de suas Igrejas Locais para um acentuado centralismo romano. E houve tentativas neste sentido, da parte de alguns setores importantes da cúria romana. Ainda bem que venceu a identidade e autonomia da Igreja da América Latina e Caribe.
O Brasil foi o país escolhido. Muito provavelmente por causa do susto tomado por homens da alta hierarquia, desde que o cardeal arcebispo de São Paulo mostrou, lá em Roma, a inexorável queda de 1 por cento ao ano no número de católicos neste país, segundo os dados estatísticos a partir do censo do IBGE em 2000. Assim, não há como evitar a suspeita de que, para um setor preponderante da hierarquia católica, a realização da V Conferência no grande santuário de Aparecida corresponde à sua esperança de uma maior visibilidade e até reforço da identidade católica deste país continental[1].
Entretanto, ao colocar-se na casa de Nossa Senhora Aparecida, a Mãe da compaixão que abriga em seu manto todos os empobrecidos deste continente, uma Conferência como esta teria que se abrir, necessariamente, para outros significados e outras respostas.
A Conferência de Aparecida, de fato, mostrou uma grande sensibilidade em relação ao catolicismo popular, e desse assunto tratou longamente. De modo paradoxal, realizou-se de uma maneira um tanto segregada dos milhares de peregrinos que, mesmo nos dias do evento, acorriam ao santuário. Distante em sua liturgia romana e gregoriana, distante no local de reunião, no subsolo da basílica. Entretanto, esta Conferência estendeu-se para além do auditório fechado, já desde a sua preparação. Foi intensa e fielmente participada por pessoas pobres e anônimas, especialmente através de espaços como a Tenda dos Mártires, erguida na periferia da cidade de Aparecida; o congresso latino-americano de Teologia, na cidade de Pindamonhangaba; a caminhada a pé, de dez quilômetros, percorrida por membros de CEBs, pastoral da juventude e diversas pastorais sociais, de Roseiras a Aparecida; também outras caminhadas e outras manifestações, além de muita oração e comunhão. Desta maneira, acabou sendo uma Conferência também das maiorias empobrecidas, com sua maneira cultural e profundamente teológica de viver o catolicismo.
Um gesto muito significativo, da parte do Episcopado, mostra uma vontade de aprender a ser Igreja a partir do testemunho de Maria e de sua inculturação no meio dos pobres: bispos representantes de cada Conferência Episcopal, com as respectivas bandeiras de seus países, ao final da missa de encerramento dirigiram-se aos pés da imagem milagrosa de Nossa Senhora Aparecida para pedir-lhe a bênção.
Infelizmente, na Mensagem Final desta Conferência, mostrou-se uma distância em relação às manifestações de Deus, através de Maria, no meio das multidões de excluídos. O texto sugerido assim se iniciava: “Reunidos aos pés da imagem negra de Nossa Senhora da Conceição Aparecida...” Mas, uma espécie de censura anti-colegial retirou as palavras “imagem” e “negra”.
Para a Igreja dos Pobres, como testemunha Jon Sobriño, reafirmar a Esperança supõe o reconhecimento de que Deus já havia passado por aqui bem antes da chegada da instituição Católica, e o Espírito de Deus já havia chegado muito antes dos missionários[2]. Podemos acrescentar que o Cristianismo aqui implantado trouxe a Virgem-Mãe Maria, mas a religião popular que faz parte do mesmo Cristianismo, junto com as preciosas tradições dos nossos antepassados afro-ameríndios, a tem trazido de um modo mais convincente.
Aparecida do Norte é lugar onde Deus já estava. Neste chão religioso plural e profundamente enraizado, temos heranças religiosas com tradições de romarias e devoção popular, desde culturas primordiais de nossos antepassados ameríndios e africanos. Deus já estava em Teotihuacán, em Chavín de Huántar e em muitos lugares sagrados, como também caminhava com os grupos em suas romarias; Deus estava na cultura Diaguita, de quem os incas herdaram o culto à Pachamama; Deus sempre esteve na peregrinação guarani rumo à Terra Sem Males. A Deusa-Mãe Tonantzin estava nas ruínas do seu santuário, no Tepeyac, por onde passou o asteca Cuahutlatóac, que os missionários cristãos batizaram com o nome de Juan Diego. Nesse lugar sagrado, a face materna e o olhar de compaixão do “Deus do Perto e do Junto” revelou-se ao povo oprimido através da Virgem de Guadalupe que, inculturada na tradição da deusa-Mãe, pede uma casa de dignidade para todos os vencidos.
Aqui tem “muita religião, seu moço!”, como Guimarães Rosa faz seu personagem Riobaldo dizer[3]. Historicamente, a religião dá sentido à resistência dos vencidos e também às suas lutas de libertação.
O lugar é a casa da Mãe. Ela é Maria de Nazaré, mulher pobre da “Galiléia dos gentios” (Mt 4,15), que é lugar de gente misturada, mestiçada, dada à religião sincrética, desprezada pelos ortodoxos judeus de Jerusalém. E quem conhece essa localidade insignificante, do interior da Palestina, chamada Nazaré? As Escrituras não a citam, o Talmud não a conhece e Flávio Josefo nunca dela ouviu falar. Como Nazaré, Aparecida é a casa dos pobres que encontram na religião o sentido para a vida e a luta.
Mas, o lugar é também a própria Mãe, Maria, mostrada no ponto alto do relato lucano da Anunciação, num paralelo com a memória da nuvem misteriosa do Êxodo: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). A nuvem ensombreava a tenda da reunião, casa comunitária do povo que se liberta. E a casa da comunidade se transformava em morada de Deus (Ex 40, 34; Nm 10,34). O Espírito cobre a virgem e ela se torna fecunda do Filho de Deus. Por isso, ela é a nova shekinah, casa de Deus, tabernáculo do encontro da humanidade com seu Deus[4]. Em Guadalupe, em Aparecida e em múltiplos lugares sagrados, neste continente Maria é a mesma nova shekinah, aberta e acolhedora, a serviço da cura integral de multidões de pessoas, padecentes dos males da injustiça social.
As águas do rio Paraíba do Sul, nas proximidades do Porto de Itaguassu, tornaram-se “encantadas” em 1717. Ofendem-nas hoje a poluição, causada inclusive pela própria basílica. Mas, são águas que fluem a memória e a presença da hierofania da imagem quebrada, que três pescadores acharam no fundo do rio. A narrativa popular diz que a “aparição” da imagem foi seguida de uma pesca milagrosa. Guardado com veneração o corpo sem cabeça, imediatamente a cabeça foi achada “mais abaixo”, e o pescador João Alves, na canoa, guardou num pano essa imagem machucada[5]. Após quinze anos de culto familiar, na casa do pescador Filipe Pedroso, a Tenda da presença de Deus na solidariedade fraterna dos pobres estabeleceu-se sobre um altar de paus, numa capelinha de beira de estrada, na Vila de Guaratinguetá. A devoção do povo tinha grande irradiação.
O mesmo Espírito que cobriu Maria com sua sombra dinamiza a devoção popular de construir capelas e santuários. Foram os escravos do capitão Raposo Leme, com a ajuda de pessoas da vizinhança, que construíram a igreja velha, no Morro dos Coqueiros, em 1745. O santuário é morada da imagem milagrosa, através da qual se tem intimidade com a Mãe que, por sua vez, é morada do Salvador. A imagem reciclada e bricolada pelos pobres, nos malabarismos de sua riqueza cultural, é signo que se abre e se entrega a contínuos ajustes e acréscimos de sentido.
Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, desde o início do século XVIII é lugar de gente pobre, escravizada, explorada e profundamente devota em sua fé cristã. No ciclo da mineração constituiu-se como um entreposto de mercadorias e de escravos, um lugar de passagem de tropas, comerciantes e multidões de migrantes, gente de todas as classes sociais, na avalanche da febre do ouro que trazia gravíssimos problemas sociais e constante repressão policial. O século XIX foi o do ciclo do açúcar, que consumia os escravos nos canaviais. A sobrevivência através da pesca era a tentativa dos pobres, submetidos a dura recessão.
Maria “apareceu” nesse lugar, num ambiente de forte tensão social, achada por pescadores explorados. Assumiu a cor da etnia mais discriminada e excluída. Seu culto nasceu, propagou-se e se mantém através da fé ativa de pessoas leigas empobrecidas, humildes e anônimas. E o primeiro favorecido por um milagre dela foi um escravo fugitivo e recapturado que, ao invocá-la, viu se quebrarem as pesadas correntes que o prendiam pelo pescoço.
Aparecida é imagem de um não-lugar
A imagem-signo é emprestada da Senhora da Conceição, que, dentro do catolicismo hegemônico, era símbolo do poder colonial. Maria de Nazaré, a cheia de graça, torna-se presente e atuante através de uma imagem da Conceição, enegrecida e frágil, pequena e com cicatrizes, mas que já trazia, desde a arte do seu escultor, traços transgressores em relação à oficialidade: com covinha no queixo e sorriso nos lábios, penteado longo e solto, flores nos cabelos e na testa, porte levemente empinado para trás, numa identificação com as mulheres brasileiras pobres. O símbolo da resistência se compõe e recompõe, por bricolagem, nessa imagem híbrida, que faz parte do mundo das pessoas escravizadas e reduzidas à servidão, e que permite a circulação de elementos simbólicos, entre os oficiais e os da tradição popular.
O lugar da imagem oficial deveria ser um centro simbólico da cristandade brasileira. A imagem da Senhora da Conceição foi utilizada para dar coesão interna à identidade da nação. Mas, o povo brasileiro surgiu e cresceu de uma maneira constrangida e deformada, debaixo de extrema violência, escravização e extermínio[6]. A hierarquia desta sociedade foi constituída sobre frágeis fundamentos, por regras frouxas e noções de dupla significação, de maneira que a ambigüidade tornou-se marca típica da cultura e do catolicismo popular brasileiros[7]. O santuário de Aparecida, que põe em movimento multidões de romeiros do centro-sul do país, é mais um dos diversos santuários marianos, numa realidade policêntrica de catolicismo devocional. No imaginário do povo devoto, a basílica de Aparecida não é, exatamente, o centro nacional da catolicidade. E o universo simbólico e o complexo calendário de festas das classes populares desencontram-se do controle político-econômico e também do controle da Igreja.
O controle se estabeleceu desde cedo. O santuário do Morro dos Coqueiros, com o culto e os cofres, foi tomado pela Confraria de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, constituída pelos ricos da região. Depois, veio a intervenção da coroa portuguesa, que se valia do padroado régio. Dom Pedro I reafirmou a Senhora da Conceição como padroeira do império brasileiro, tolerando como apêndice o título de Aparecida. Mas, sua cor negra foi alvo de intolerância. Em 1854, o bispo da diocese de São Paulo, Dom Antônio Joaquim de Melo, tentou branqueá-la, mandando que se queimassem as estampas em que ela era representada negra e apresentando para a difusão uma estampa da Aparecida na cor branca, que mandara imprimir na Franca[8]. E o episcopado brasileiro, após longa ausência nas romarias do povo, e sem ter visto em Nossa Senhora Aparecida o significado de libertação dos escravos, quando se estabeleceu a República empenhou-se na utilização desta devoção popular em sua campanha de restauração católica, numa militância anti-secularista e anti-positivista[9].
Sob o controle da hierarquia, a igreja velha foi ampliada, declarada santuário episcopal em 1893 e confiada aos missionários redentoristas alemães. A imagem foi solenemente coroada em 1904. em 1908, o santuário recebeu da Santa Sé o título de basílica menor.
Na década de 1930, o episcopado brasileiro conseguiu reunir grandes massas de fiéis e ostentar, diante do governo secular, o poder da nação católica. Dom Sebastião Leme proclamou, a 31 de maio de 1931, o título de Rainha e Padroeira do Brasil, que, no ano anterior, o papa Pio XI havia concedido à imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Junto a um milhão de fiéis e perante as autoridades civis e militares, a Igreja mostrou sua competição com o populismo de Getúlio Vargas. Em 1980 inaugurou-se a basílica nova, ocasião em que a imagem milagrosa recebeu, da Santa Sé, a rosa de ouro. O governo secular, por sua vez, deu-lhe um feriado nacional.
Entretanto, a santa do não-lugar, protetora dos sem-lugar, escapa ao controle e subverte as fronteiras estabelecidas. Ela se deixa bricolar, no seu significado, por pessoas despossuídas e dadas aos sincretismos. Ela se enegrece. Através dela, a adesão de coração ao evangelho, impossibilitada pela opressão colonizadora, se faz por um outro registro. Ela legitima, por um desvio, o processo sócio-cultural-religioso dos pobres[10].
Em seu cântico de libertação, o Magnificat (Lc 1, 46-55), Maria revela o que há de mais profundo da espiritualidade vivida, no povo da Primeira Aliança, pelos anawin, pelos profetas e pelos cantores da libertação dos pobres. É consciente, inteira e jubilosamente como servidora, que ela se coloca, junto com seu Filho, na ação de Deus que subverte a lógica da opressão e da exploração. É a primeira discípula, mulher de fé a toda prova. Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-12), ela abre a ação subversiva do seu Filho e se adianta a Ele. Ele faz as talhas destinadas às abluções ficarem transbordantes do melhor vinho: da escravidão da lei vai para a vida abundante para todos e todas; da coerção vai à verdadeira liberdade, do dogma ao ser humano, da repressão à festa.
Na América Latina e Caribe, crescentemente os conceitos do catolicismo libertador se assentam no simbolismo tradicional da Mãe dos pobres, sempre presente e protetora. Maria é também companheira de caminhada, lutadora corajosa, junto com outras Marias do povo. Especialmente através das comunidades eclesiais de base, das minorias proféticas, grupos e movimentos de pessoas que vivem sua fé cristã empenhados na transformação da sociedade, Ela vem sendo reconhecida numa afirmação sócio-religiosa de identidade dos negros, índios e mestiços. A conscientização se faz mantendo vivo o sentido religioso e ressignificando elementos da religião popular.
No santuário de Aparecida, é preciso escutar a voz de Maria que canta a ação do Deus libertador dos pobres. Como discípulas e discípulos do seu Filho, temos que reafirmar e atualizar a opção pelos pobres, buscando dar respostas concretas e eficazes para os problemas de injustiça que persistem nas relações sociais de classe, gênero, raça/etnia, geração, cultura. Temos que abraçar a inculturação da boa nova, inclusive no diálogo aberto e solidário com as inusitadas recomposições do imaginário do povo.
Com os pés despidos para sentir o chão por onde vão pés dos romeiros, poderemos participar do Cântico de Maria, nele inserindo as maravilhas que Deus Pai e Mãe tem operado entre os povos da América Latina e Caribe.
[1] . Esta mesma suspeita a respeito da escolha do Brasil como país e de Aparecida como lugar está em AMERÍNDIA (org.). Sinais de Esperança: reflexão em torno dos temas da Conferência de Aparecida. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 45.
[2] . Id., p. 9.
[3] . ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas.
[4] . Ver BOFF, Clodovis. Introdução à Mariologia. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 51.
[5] . Pode-se ver detalhes da tradição popular em BRUSTOLONI, Júlio. História de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: a imagem, o santuário e as romarias. 10a. ed. ver/ e ampl/. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1998, pp. 29-31; 43-48.
[6] . RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 26; 44; 47; 70.
[7] . FERNANDES, Rubem César. Romarias da Paixão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 117.
[8] . SANTOS, Lourival dos. Igreja, Nacionalismo e Devoção Popular: as estampas de Nossa Senhora Aparecida – 1854 – 1978. Dissertação de Mestrado em História, USP, 2000. A localidade onde está o santuário de Aparecida pertencia à diocese de São Paulo.
[9] . A este respeito pode-se consultar BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, cap. IX, pp. 273-307. Também MORAES, E. Vilhena de. A Padroeira do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Dom Vital, 1929.
[10] . Certeau mostra como sujeitos reduzidos à condiçãod e fracos fazem a proliferação disseminada de criações anônimas e perecíveis, invertendo e subvertendo as leis e representações da ordem dominante. Cf. CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. I. Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.